CHA COM FRESCURINHAS...

Mas as datas das minhas escolhas... estas datas eu celebro porque eu dotei de sentido. São as datas dos meus vários renascimentos, das várias mudanças de rumo que minha vida deu e das quais emergiram várias outras es.png

 

- Que dia é hoje?

- Terça-feira

- Não! Eu perguntei que dia é hoje, você esqueceu?

Quem já não passou por um diálogo parecido? Quem já não teve que buscar uma desculpa para o esquecimento de alguma data importante? Quem disser que nunca viveu essa situação constrangedora com certeza está faltando com a verdade, ou está com problemas de memória. Nisso cabe uma reflexão com certeza.

O que faz uma data ser tão especial a ponto de merecer uma cobrança assim? Não é apenas mais um dia? Para quem esqueceu talvez seja um dia como outro qualquer. Mas para a pessoa “dona” daquela data, com certeza não é.

A percepção do tempo é um fenômeno estranho. Totalmente subjetivo. Faz com que um número que fraciona minha vida tenha um significado completamente diferente. E datas ganham significados também subjetivos. Qual é o dia do seu aniversário? O dia que você nasceu ou o dia em que você renasceu? Seria aquele dia que você passou a ver as coisas de outro modo? O dia em que eu nasci celebra o início da minha vida, eu estava lá mas foram os outros dotaram essa data de significado. Eu empresto dos outros o significado desta data.

Mas as datas das minhas escolhas... estas datas eu celebro porque eu dotei de sentido. São as datas dos meus vários renascimentos, das várias mudanças de rumo que minha vida deu e das quais emergiram várias outras escolhas... vários outros renascimentos. Estas datas são importantes para mim e não estão assinaladas no calendário. Estão inscritas no coração e marcam profundamente minha alma de porcelana. Pois bem, hora do chá... Vou escolher uma xícara nova, recém comprada? Não! Vou oferecer a vocês um chá numa xícara muito especial. Essa xícara não é minha, mas eu empresto de minhas lembranças para convidá-los a tomar chá. É uma xícara branca, com flores miúdas desenhadas na lateral e nos pires. Faz parte de um jogo de xícaras que minha mãe tem na cristaleira dela. Deste jogo já herdei as xícaras de cafezinho, sem os pires que se perderam no tempo. As de chá ainda estão lá, sorrindo para mim cada vez que olho a cristaleira. Minha mãe com certeza sabe de quais xícaras estou falando e também está convidada para o chá.

Este chá não acontecerá hoje, e sim amanhã, dia do aniversário dela. Aniversário da mulher que nunca esqueceu nenhum aniversário da família. Uma mulher que renasceu várias vezes em várias escolhas e recomeços junto com meu pai. Uma mulher forte que nem sabe a força que tem. Uma mulher sensível em suas percepções, extremamente amorosa e muito, mas muito especial. Foi com ela que aprendi a valorizar os recomeços e aprender sempre. Com ela aprendi a ver nas marcas do tempo o sinal de que a vida vale a pena.

Pois bem, mãe de tantas almas de porcelana a quem ouviu e com quem já orou, é hora de sentar à mesa que vou servir um chá para a senhora. Um “chá com frescurinhas” como meu pai, grande companheiro, costumava chamar quando via a mesa bem posta que adoro fazer e que aprendi com minha mãe.

O chá é para comemorar a vida e as “frescurinhas” são todas as pequenas coisinhas que colocamos na mesa. Enfeites gostosos mas que só tem sentido porque nós reconhecemos como parte de nossas histórias. Bolos, cucas, geléias, biscoitinhos amanteigados, tudo para acompanhar um delicioso chá de hibiscus.

Mas o mais importante, a alegria de ver nossa história, tantas vezes celebrada pelas mãos e pelo sorriso da “dona” desta data, sendo colocada à mesa. Então vamos escolher a porcelana mais cheia de histórias da casa. Aquela com florzinhas há tanto tempo guardada na cristaleira. Aquela mesmo, onde eu tomava remédio de gosto amargo quando pequena e que eu sempre busquei em minhas lembranças cada vez que a vida se apresentava “amarga”. Aquela xícara com cheiro de mãe numa cristaleira de madeira de louro na sala da casa dos meus pais. Não se trata de mais uma data, marcando o tempo da sua vida, mas de uma vitória de uma alma de porcelana, com muitas marcas e muitas histórias de superação e amor.

E agora, já sabe que dia é hoje?