ACEITA UM CHÁ?

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Foi com essa pergunta simples que conheci, muitos anos atrás, uma pessoa incrível. Uma senhora cuja sabedoria se abrigava entre seus lindos cabelos brancos. Pequenina, aparentemente frágil, mas com força de sentimentos e opiniões formados pela experiência.

Minha resposta... Aceito sim, mas posso escolher a xícara?

Lá estava eu, na frente de uma cristaleira muito antiga, cheia de peças delicadas, marcadas por vários chás ao longo dos anos. Para quem ainda não sabe, essa é uma das minhas muitas histórias que herdei em xícaras lindas, que recebi de mãos enrugadas e cabelos brancos ao longo de minha vida. Hoje minhas mãos também começam a mostrar os sinais do tempo, e os meus cabelos só não são brancos porque ainda recorro aos avanços da indústria de cosméticos que retarda um pouco a ostentação da experiência.

Mas lá estava eu, olhando aquela cristaleira cheia de histórias, como uma criança numa loja de brinquedos. E apontei, bem ao fundo, buscando a alma da cristaleira, uma jóia de porcelana muito fina, branca, com desenhos de pássaros. Uma xícara delicada, com a delicadeza que só aquela porcelana no fundo daquela cristaleira poderia conter. E com um sorriso lindo de satisfação, a xícara veio parar em minhas mãos. Não preciso falar da minha alegria, e do medo de macular a pureza daquela porcelana. Afinal, tinha mais de 100 anos de chás, de histórias, de sentimentos, de alegrias e dores.  Mais de 100 anos de vida naquela xícara. E aquelas mãos serviram o chá com a segurança de mãos trêmulas de emoção por ver suas histórias voltarem para a mesa. Contou que aquelas xícaras foram um presente de casamento de uma tia de quem ela gostava muito, mas que por ser de uma porcelana muito fina, quase transparente, só usava em ocasiões especiais. Até que ficaram esquecidas no fundo da cristaleira. Falou de lembranças, de momentos importantes... e chorou de alegria. Ela me perguntou... O que você vê além da poeira de uma xícara velha e manchada? Eu me pergunto todos os dias... O que vejo além da minha própria poeira? Não seria como aquela xícara de porcelana fina, velha e manchada? Por vezes fico guardada no fundo da minha própria cristaleira, com todas minhas marcas de chás repletos de lembranças e recordações. Sou frágil como aquela porcelana, mas forte o bastante para fazer caber em mim todas as histórias do mundo. Todas as minhas histórias.

E se hoje tiro aquelas xícaras da minha cristaleira e sirvo chá para alguém em minha casa com certeza ofereço mais do que chá. E recebo muito mais do uma boa conversa. E minha cristaleira se enriquece com mais algumas histórias contadas em xícaras e chás.

 

Agora eu pergunto... ACEITA UM CHÁ?